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Arquivo : Escândalo de doping da Rússia

Atleta russa que “deve medalha” olímpica ao Brasil se recusa a entregar
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Daniel Brito

Time russo de revezamento comemora o ouro em Pequim-08, perdido anos mais tarde (Al Bello/Getty)

A corredora Yulia Gushchina, 33, amargou a experiência de ter suas três medalhas olímpicas perdidas por causa de doping. Mas não foi por causa dela, e sim, por conta de suas companheiras de equipe. Ela acumulou um ouro, uma prata e um bronze em Pequim-2008 e Londres-2012 em provas do revezamento do atletismo. Mas perdeu todas porque uma ou mais parceiras testou positivo no exame antidoping. Gushchina, no entanto, jamais foi flagrada.

Uma dessas medalhas interessa ao Brasil. A Rússia foi ouro no revezamento 4x100m rasos em Pequim-2008. Porém, uma das componentes do time russo falhou no reexame das amostras de urina e sangue feitas pelo COI (Comitê Olímpico Internacional) entre 2015 e 2016. Assim, a Rússia perdeu o ouro, O Brasil – que terminara aquela prova na quarta colocação com Rosemar Coelho, Lucimar de Moura, Thaissa Presti e Rosangela Santos – herdou o bronze. As belgas ficaram com o ouro, e as nigerianas, com a prata.

Doping de companheiras de equipe tirou as medalhas de Gushchina (Getty)

Quando consultada pela imprensa russa sobre a perda das medalhas, Gushchina soltou o verbo. “Eu não sei das outras garotas, mas eu não devolvo a minha”, afirmou a corredora após ser informada da terceira perda consecutiva, desta feita em reexames de urinas coletadas em Londres-2012. “Já estou levando uma vida completamente diferente, estou esperando meu segundo filho, não vou aos tribunais por causa disso”, completou.

O regulamento do COI diz que, em caso positivo de doping, o atleta medalhista é obrigado a devolver a láurea. Veja, por exemplo, o caso de Usain Bolt. Ele perdeu o ouro no revezamento 4x100m de Pequim-2008 e já devolveu sua medalha, apesar de o doping ter sido confirmado em um companheiro de equipe e não nele.

Mas os russos que estão sendo flagrados por atacado em reexames do COI de Pequim-08 e Londres-12, estão demorando para devolver. O presidente do Comitê Olímpico Russo, Alexander Zhukov, disse às agências internacionais de notícias que nenhuma desportista flagrado em doping havia devolvido a medalha. Havia a suspeita de que esse fosse um pedido expresso de Vitaly Mutko, ministro do esporte, e home forte do governo Putin. O governo, no entanto, recusou-se a comentar o caso.

O Brasil já faz planos de receber as medalhas do quarteto que herdou o bronze em Pequim-2008. Agora em março deve haver um pódio temporão.

Brasileiras celebrarão a medalha de Pequim-08 nove anos mais tarde (Al Bello/Getty Images)


Punição à Rússia causa constrangimento entre paraolímpicos e COI
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Daniel Brito

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Ferve em fogo brando a longa relação entre COI (Comitê Olímpico Internacional) e IPC (Comitê Paraolímpico Internacional, na sigla em inglês), desde que as duas entidades deram destinos diferentes à Rússia, acusada de manter um largo esquema de doping com apoio do governo. Enquanto os olímpicos terceirizaram a responsabilidade para as federações internacionais decidirem sobre a  participação de russos nas Olimpíadas-2016, os paraolímpicos baniram completamente da Rio-16 a delegação do país. E mais: os excluíram dos Jogos de inverno de PyeongChang-2018.

Aos olhos da crítica internacional, ficou clara uma posição de antagonismo dos dois parcerios. O COI afrouxou as rédeas que o IPC manteve curta no relacionamento com a Rússia, uma potência não só esportiva como geopolítica. Os elogios foram para o IPC e as críticas, ao COI.

Criou-se um constrangimento

Em vez de apagar a fogueira da vaidade, o COI borrifou o fogo com querosene: anunciou que o alemão Thomas Bach, presidente do Comitê Olímpico Internacional, não virá ao Rio para a cerimônia de abertura dos Jogos Paraolímpicos. Desde Seul-1988, o presidente do COI prestigia a inauguração das Paraolimpíadas.

A justificativa de Bach é de que participará do funeral de Walter Scheel, que morreu aos 97 anos em 24 de agosto – portanto, há duas semanas -, em Berlim. Scheel foi presidente da Alemanha Oriental de 1974 a 1979. Em substituição a Bach virá o sul-africano Sam Ramsamy, membro do COI há 21 anos.

“Lamentamos que o presidente [Thomas Bach] não possa vir, mas entendemos que houve um imprevisto na Europa. Estivemos em contato com ele desde que os Jogos Olímpicos terminaram e esperamos vê-lo no Brasil o mais cedo”, disse Mario Andrada, diretor de comunicação do Comitê Rio 2016.

Craig Spence, diretor de comunicação do IPC, garantiu em entrevista ao blog que não há atrito polítivo entre as organizações, e que a decisão da entidade para qual atua foi avalizada pelo TAS (Tribunal Arbitral do Esporte). “O TAS disse que, embora as duas entidades tratem de esporte, é compreensível a decisão de cada uma delas, porque atendem às suas respectivas particularidades. Não há  conflito algum em nossas decisões”, disse Spence ao blog.

O desgaste políticos entre ambas as partes chega em um momento importante do relacionamento entre COI e IPC. Em junho, antes de toda a polêmica, as duas entidades deram início a um acordo para que Jogos Olímpicos e Paraolímpicos continuem sendo realizados na mesma cidade, como ocorre desde Seul-1988, com um evento seguido do outro. Atualmente, o contrato entre eles está confirmado somente até Tóquio-2020. Em junho, foi assinado um memorando de entendimento que define os princípios para um novo acordo de longo prazo entre as organizações até os Jogos de 2032. Mas pouco está decidido.

É improvável que, por causa da Rússia, as duas partes venham a desfazer negócio, contudo, novas bases desse acordo serão feitas sob o som das críticas contra o COI. E isso pode causar alguns prejuízos, principalmente financeiro, aos Jogos Paraolímpicos, que não têm a mesma força comercial dos Olímpicos, para as edições posteriores a Tóquio-2020.


Casal que detonou esquema russo de doping depende de ‘vaquinha’ para viver
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AMSTERDAM, NETHERLANDS - JULY 06:  Yuliya Stepanova of Russia looks on during her 800m heat on day one of The 23rd European Athletics Championships  at Olympic Stadium on July 6, 2016 in Amsterdam, Netherlands.  (Photo by Dean Mouhtaropoulos/Getty Images)

Yulia Stepanova esperava ter autorização para disputar a Rio-2016 (Dean Mouhtaropoulos/Getty)

Uma campanha internacional de crowdfunding (financiamento coletivo) para Yulia e Vitaly  Stepanov já arrecadou aproximadamente R$ 80 mil em cinco dias. Eles formam o casal que detonou todo o esquema de fraude de doping bancado e ocultado pelo governo russo. O episódio veio à tona após denúncia feita a emissora de TV da Alemanha chamada ARD, em 2014.

Desde então, os Stepanovs vivem com medo. Temem ser vítimas de queima de arquivo. Perambularam às escondidas por Alemanha, Suíça e hoje estão em algum lugar dos Estados Unidos. Na semana passada, os dois concederam entrevista à Comissão de Ética do COI (Comitê Olímpico Internacional) sobre o caso. Reforçaram as denúncias que tornaram públicas à TV alemã há dois anos.

Esperava-se que o COI fosse banir todos os atletas russos dos Jogos Olímpicos do Rio-2016. Havia, inclusive, a expectativa de que o COI fosse dar a vaga olímpica a Stepanova na prova dos 800m do atletismo, na qual é especialista. Seria um prêmio pela delação bombástica e que muda a história do combate ao doping no esporte..

O COI, contudo, nem baniu a Rússia e nem muito menos autorizou Stepanova a disputar a Rio-16. O que foi encarado como um sinal de desencorajamento a futuras delações de atletas, treinadores ou agentes do controle de doping..

Vitaly, por exemplo, era funcionário da Rusada, a agência russa de combate ao doping. Participou do esquema por um determinado período. Até que ele e Yulia decidiram gravar conversas com atletas e treinadores em que confirmavam todo o esquema profissional de doping.

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Yulia, o filho Robert, de 2 anos, e Vitaly: vida nos EUA (Reprodução/Facebook)

Agora, obviamente, está sem o emprego, e desde 2013, o casal tem a companhia do pequeno Robert, filho de Vitaly e Yulia. Mas a família foi abandonada pelos amigos russos, os parentes dos Stepanovs evitam contato. Eles são tidos como traidores da pátria.

A política de investimento em esporte na Rússia passa diretamente pelo Kremlin. Basta dizer que Vitaly Mutko, ministro do Esporte, é suspeito de estar diretamente envolvido no caso de ocultação e financiamento de doping. É uma figura tão controversa que também está no epicentro do escândalo de corrupção da Fifa para eleição da sede do Mundial-18.

Durante os Jogos Olímpicos de inverno, na ensolarada Sochi, há dois anos, a Rússia bateu recorde de medalhas, fazendo uso desse esquema de doping, segundo investigações da Wada (Agência Mundial Antidoping). e a popularidade de Vladimir Putin, presidente do país, bateu na casa dos 80% – muito desse percentual se deve, é verdade, à investida da Rússia na guerra contra a Ucrânia, para tomar a região da Criméia.

Como a Rússia ainda carrega aquela herança soviética de que é possível mostrar toda a força e poderio da nação por intermédio da performance esportiva, o casal Stepanov caiu em desgraça popular no Cáucaso.

Agora, eles buscam sobreviver nos Estados Unidos e o crowdfunding, apoiado por membros da comissão de atletas da Wada, tem o intuito de arrecadar cerca de R$ 265 mil para o casal. Em cinco dias, um quarto deste valor já foi angariado.
Os interessados em contribuir podem fazê-lo neste link.

AMSTERDAM, NETHERLANDS - JULY 06:  Yuliya Stepanova of Russia walk off the track after competing in the Women's 800m during Day One of The European Athletics Championships at Olympic Stadium on July 6, 2016 in Amsterdam, Netherlands. (Photo by Ian MacNicol/Getty Images)

Stepanova disputou o Europeu, em junho, mas lesionada, ficou em último (Ian MacNicol/Getty)


Banimentos e desistências dão clima de anos 1980 aos Jogos Rio-2016
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Daniel Brito

at Madison Square Garden on January 12, 2016 in New York City.The New York Knicks defeated the Boston Celtics 120-114. NOTE TO USER: User expressly acknowledges and agrees that, by downloading and or using this photograph, User is consenting to the terms and conditions of the Getty Images License Agreement.

Jovem pivô lituano Kristaps Porzingis alegou lesão para não disputar a Rio-16 (Getty)

Saiu com pouco destaque na imprensa brasileira o banimento da equipe da Bulgária de levantamento de peso dos Jogos Olímpicos do Rio-2016. Decisão tomada após 11 atletas, sendo oito homens da delegação do país, testarem positivo para o anabolizante estanozolol, o mesmo do velocista canandense Ben Johnson.

Evitou o constrangimento pelo qual os búlgaros passaram em Sydney-2000, quando a equipe foi flagrada durante os Jogos, teve de devolver as medalhas e foi mandada de volta para casa.

Também passou despercebido no noticiário a sanção do COI (Comitê Olímpico Internacional) ao Kuwait, por interferência governamental na estrutura esportiva do país. Pode até haver kuwaitianos disputando os Jogos-2016 mas não sob a bandeira de seu país, banido do Rio.

Nas últimas duas semanas, os Jogos do Rio-2016 sofreu importante baixa no atletismo. A suspensão à Rússia, por fraudar exames e resultados de controle de dopagem. O Quênia, uma potência, também pode ser sancionada por motivo semelhante.

Afora esses casos, há as frequentes desistências de astros do esporte mundial, como Stephen Curry e até mesmo Messi. Um ciclista americano, um boxeador russo, um tenista australiano, um futebolista sueco, quase metade do Dream Team de basquete, os principais golfistas do circuito mundial, um basquetebolista lituano, um tenista espanhol…E quantos outros atletas anônimos.

E os motivos são diversos: desde o já conhecido discurso de “descanso”, lesão até as especificidades dos Jogos do Rio-2016, como preocupação com segurança, doenças tropicais como zika vírus e dengue ou mesmo insatisfação com o regulamento – que é o caso do boxe.

CHICAGO - NOVEMBER 3:  Artur Beterbiev of Russia stands on the victory podium after his win over Abbos Atoev of Uzebekistan in the 81 kg division during the finals of the AIBA World Boxing Championships at the UIC Pavilion November 3, 2007 in Chicago, Illinois.  (Photo by Matthew Stockman/Getty Images)

Boxeador russo Artur Beterbiev desistiu da Rio-16, que seria sua 3ª olimpíada (Matthew Stockman/Getty)

Havia muito não se noticiava tantas ausências em uma só edição olímpica.

Talvez seja o caso de rememorar os Jogos de mais de três décadas atrás. Lembrar de Moscou-80 e Los Angeles-84, época em que a geopolítica mundial era polarizada. A decisão dede participar ou não era política e não esportiva.

Tanto é verdade que muitos atletas olímpicos americanos tentaram se voltar contra a decisão unilateral do então presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, de proibir a participação do país em Moscou-80. Obviamente, faltou-lhes força política para bater de frente com Carter. Sessenta e cinco países abriram mão de competir na capital da então União Soviética, há 36 anos.

Quatro anos mais tarde foi a vez do bloco soviético adotar a política da reciprocidade. Angariou 15 aliados, que recusaram-se a enviar competidores a Los Angeles-84.

A partir de Seul-88 até Londres-2012, Jogos Olímpicos foram sinônimos de celebração e excelência esportiva. Em geral, o período que antecede aos Jogos é repleto de ansiedade por parte das estrelas olímpicas e dos potenciais medalhistas. Eles são tomados por aquela inquietação de quem se considera pronto para vencer.

E que difere um pouco do clima instaurado no Brasil nesta reta final antes da Rio-16. A inquietação agora é outra.

É claro que as proporções dos boicotes da década de 1980 são muito maiores do que os casos de desistências ou suspensões que pipocam aqui e acolá em frequência diária. Mas é inevitável sentir o sabor agridoce de receber o maior evento esportivo do planeta sem necessariamente contar com alguns dos maiores da atualidade.

A propósito, enquanto este texto estava sendo escrito, mais um atleta anunciou desistência: o golfista norte-irlandês Rory McIlroy, numero 1 do ranking mundial,  temendo contrair o vírus zika no Rio.

Quem será o próximo a desistir? Ou os próximos banidos?

CHARLOTTE, NC - MAY 06:  Adam Scott hits a shot out of the sand on the 15th hole during the second round of the 2016 Wells Fargo Championship at Quail Hollow Club on May 6, 2016 in Charlotte, North Carolina.  (Photo by Streeter Lecka/Getty Images)

Australiano Adam Scott disse ter compromissos profissionais e pessoais e não virá ao Rio-16 (Getty)


Mais uma da Rússia. Atleta diz que atropelamento na infância causou doping
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Daniel Brito

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A russa Irina Maracheva, 31, entrou para a história como mais uma atleta do país a ser flagrada no exame antidoping e, principalmente, por aumentar o inventário de justificativas para que seu teste de sangue detectasse alguma substância ilegal.

“Há muito estou tentando provar a inocência de Irina [Maracheva]. O fato é que quando ela era criança, sofreu um grave acidente, foi atingida por um carro, bateu a cabeça, sofreu uma concussão séria. Isso alterou os parâmetros do sangue dela”, disse à imprensa russa Zamira Zaytseva, ex-meio-fundista da União Soviética e treinadora de Maracheva.

A atleta, bronze nos 800m no Europeu de atletismo em 2012, na Finlândia, falhou no teste do passaporte biológico, que consiste em mapear individual o sangue de cada competidor. Por isso, foi suspensa por dois anos do esporte pelo Comitê Olímpico da Rússia.

“Não conseguimos provar 100% a relação entre o trauma da infância e a alteração no sangue, mas Irina já fez exames antidoping diversas vezes antes. Por que só agora deu resultado anormal? Porque foi feito apenas o teste de sangue, quando fazem exame de sangue e urina nunca dá positivo”, explicou à agência de notícias Tuss, da Rússia.

A cruzada contra o doping no atletismo russo é grande. O país ainda não está confirmado nos Jogos Olímpicos do Rio-2016, desde que foi revelado, na segunda metade de 2015, o caso de ocultação sistemática de doping envolvendo estrelas da modalidade na Rússia. O esquema envolvia os competidores de melhores resultados em competições internacionais e há a suspeita de que havia até a participação de membros do alto escalão do governo nacional. Até o antigo presidente da IAAF (sigla em inglês para Federação Internacional de Atletismo), o senegalês Lamine Diack, e seu filho, estão envolvidos. Recentemente, a Adidas anunciou a retirada do patrocínio milionário da entidade (cerca de R$ 123,6 milhões).


Doping, corrupção, manipulação de resultados…O que fizeram com o esporte?
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Daniel Brito

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Uma determinada empresa de comunicação lançava, em meados de 2008, sua campanha para cobertura jornalística dos Jogos Olímpicos de Pequim. Evento em um restaurante de São Paulo, repleto de ex-atletas, comentaristas e os jornalistas envolvidos naquela operação. Em seu discurso, o mandatário do veículo avisava: “Nós só vamos dar notícias boas, queremos que o esporte sirva para alegrar as pessoas, não queremos saber de notícias ruins”.

Os aplausos que se seguiram abafaram o prejuízo que esse tipo de raciocínio traz não só para o esporte, mas para o jornalismo esportivo. Principalmente porque aquele executivo não era o único a pensar desta maneira.

Hoje, vemos o quão nocivo foi acompanhar esporte só pelas “notícias boas”. Mega esquemas de corrupção, dopagem, manipulação de resultado são descobertos com frequência diária pelos combativos colegas da imprensa europeia e dos Estados Unidos.

O mais recente, você deve se lembrar, foi o de manipulação de resultados (match fixing, em inglês) no tênis. Uma notícia que parece não ter surpreendido aos tenistas, se levarmos em conta a reação dos astros. Federer, por exemplo, disse o óbvio quando colocou o match fixing no mesmo grau de periculosidade que o doping, mas rebateu quase que em tom de desafio: “Gostaria de ouvir os nomes [dos envolvidos]. Foi um jogador? Foi a equipe de apoio? Quem foi? Foi antes? Eram tenistas de simples ou de duplas? Em qual Grand Slam?”.

Bom, a rede de TV britânica BBC anunciou ter um relatório que incrimina pelo menos 16 tenistas, um deles vencedor de Grand Slam.

Já no atletismo, foi revelado, na segunda metade de 2015, o caso de ocultação sistemática de doping envolvendo estrelas da modalidade na Rússia. Eram campeões e campeãs olímpicas, donos de recordes mundiais, gente grande. Caso que só veio à tona porque um partícipe da fraude resolveu abrir o jogo para uma rede de TV na Alemanha. Hoje, vive escondido e com medo em algum lugar da Alemanha, uma vez que o escândalo respinga até no alto escalão do governo russo.

A Rússia, por seu turno, corre o risco de não participar do atletismo nos Jogos do Rio-2016. Até o antigo presidente da IAAF (sigla em inglês para Federação Internacional de Atletismo), o senegalês Lamine Diack, e seu filho, estão envolvidos. Recentemente, a Adidas anunciou a retirada do patrocínio milionário da entidade (cerca de R$ 123,6 milhões).

O mais curioso deste caso é que o delator foi totalmente esquecido pela IAAF. A entidade máxima do atletismo fala em limpar o esporte, promover mudanças no controle de dopagem, punir os culpados. Mas jamais fez menção de retribuir ao delator pela coragem de desmantelar os trapaceiros no atletismo russo.

Antes desses casos, contudo, veio a gênese de todas as falcatruas. Quando se fala em fraude, quadrilha e corrupção em esporte está cada vez mais difícil deixar de citar o futebol, a Fifa, a CBF, Conmebol, com todos os acontecimentos de maio de 2015 até hoje. A investigação do FBI, a CPI do Futebol no Senado, a prisão de dirigentes, o jogo de esconde-esconde da cartolagem brasileira…

São só três exemplos mais recentes de monstros que parasitavam e corroíam internamente algumas das modalidades mais populares do mundo. E eles só foram descortinados graças à apuração jornalística, com apoio dos órgãos fiscalizadores, quando já estavam tão grandes que não mais cabiam dentro deles.

E o Brasil?
O Brasil também tem seus mau exemplos.

Só para citar alguns casos mais recentes, basta lembrar as diversas irregularidades encontradas pela CGU (Controladoria Geral da União) na gestão Ary Graça à frente da CBV (Confederação Brasileira de Vôlei). O caso, que quase provocou a perda de um patrocínio anual de R$ 70 milhões à confederação, foi revelado pelo jornalista Lúcio de Castro no site da ESPN Brasil em 2014 e 2015. O mesmo Castro também trouxe à luz no UOL Esporte, em novembro passado, as trapalhadas de Carlos Nunes, presidente da CBB (Confederação Brasileira de Basquete), na gestão de recursos públicos oriundos de patrocínio da Eletrobras.

Meu amigo e ex-companheiro de Correio Braziliense e UOL Esporte, José Cruz milita há décadas na cobertura da política esportiva em Brasília e coleciona casos de desonestidade com dinheiro público nas mais diversas modalidades, como tênis, taekwondo, ciclismo, esgrima…

É claro que há indícios de outras irregularidades, principalmente porque o esporte de alto rendimento é financiado pelo poder público. O “Relatório de Levantamento de Auditoria” do TCU (Tribunal de Contas da União), do final de 2015, relatado pelo ministro Augusto Nardes e aprovado em plenário, alerta que “há risco de desvio de recursos públicos destinados ao esporte”.

E por que tudo isso acontece? Porque o esporte tornou-se espetáculo, negócio milionário, e, no Brasil, a maior parte dos investimentos vem dos órgãos do governo que, por sua vez, não têm estrutura para o controle dos gastos, como alerta o próprio Tribunal de Contas.

Por isso é importante entender que esporte não é “só notícia boa”, como discursou o executivo da comunicação no lançamento da cobertura jornalística da sua empresa antes dos Jogos Olímpicos de Pequim-2008.


Escândalo de doping pode consagrar africana que teve que provar ser mulher
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Daniel Brito

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Caster perdeu o ouro para Savinova (centro) em Londres-12

A sul-africana Caster Semenya, 24, pode herdar duas medalhas de ouro de uma só vez por causa do escândalo de doping envolvendo a equipe russa de atletismo. Ela foi medalhista de prata nos 800m no Mundial de Daegu-2011, na Coreia do Sul, e nos Jogos Olímpicos de Londres-2012. Em ambas as provas, foi superada por Mariya Savinova, 30.

Mas Savinova está enrolada até o último fio de cabelo com o escândalo de ocultação de resultados positivos de doping que ocorreu de forma sistemática com a anuência da agência russa de combate à dopagem e do ministério do esporte do país. Em relatório divulgado no início desta semana pela Wada (Agência Mundial Antidopagem), a campeã olímpica dos 800m merece um capítulo à parte.

A agência tem gravações telefônicas de Savinova admitindo o uso de substâncias para melhorar a performance nas competições e, ainda por cima, comprometendo o resto da delegação de atletismo do país. ‘Na Rússia, todos estão na ‘pharma’”, teria dito ela, referindo-se a laboratório que fornece suplementos proibidos pela Wada.

A agência, em seu relatório, recomenda que Savinova e a medalhista de bronze dos 800m em Londres, Ekaterina Poistogova, sejam banidas de forma perpétua do esporte e seus resultados sejam anulados.

Assim, Semenya ganharia dois ouros de uma vez só. À imprensa sul-africana, ela disse que ainda assim não se sentiria campeã. “Mesmo que venham esses ouros, eu ainda vou me considerar medalhista de prata”, afirmou após uma prova de rua na cidade de Tembisa.

Teste de femininidade
Ainda que o ouro olímpico chegue por vias tortas para Caster Semenya, a láurea coroaria uma longa jornada pela qual teve que passar para competir no cenário internacional.

O COI decidiu não permitir que mulheres com excesso de hormônio masculino, como a testosterona, competissem no feminino em Londres-2012. Ou seja, estariam excluídas as que sofrem de hiperandrogenismo, que é quando a mulher produz esses hormônios acima da média das demais de modo natural.

Os efeitos do androgênio (hormônio masculino) no corpo ajudam a explicar por que os homens têm performance superior às mulheres em vários esportes. Mulheres com hiperandroginismo geralmente têm atuação superior a outras atletas.

Este é o caso de Semenya, que nunca revelou por qual tipo de tratamento hormonal se submeteu (ou se submete ainda).

A atleta sul-africana ficou famosa no Mundial-2009, em Berlim, ao ser campeã mundial dos 800 m com mais de dois segundos à frente da segunda colocada, antes do controverso teste de gênero que precisou fazer. À época, levantaram-se suspeitas ao ponto de surgir o rumor de que a sul-africana seria hermafrodita. A IAAF (entidade máxima do atletismo) solicitou à federação sul-africana informações e exames da atleta.

A federação a defendeu, mas, em acordo com a IAAF, aceitou exames para comprovar o sexo de Semenya. Foram quase 11 meses de avaliações, período no qual Caster não pôde competir. Retornando apenas em 2011, para o Mundial de Daegu, no qual perdeu o ouro exatamente para Mariya Savinova.

Desde que surgiu naquele Mundial de Berlim-09 e foi alvo de tantas polêmicas, Caster Semenya nunca mais foi tão rápida.

Caster Semenya of South Africa celebrates after winning the women ´s 800 metres final during the world athletics championships at the Olympic stadium in Berlin August 19, 2009. REUTERS/Dominic Ebenbichler (GERMANY SPORT ATHLETICS. (Foto: DOMINIC EBENBICHLER/SCANPIX DANMARK 2009)

O título mundial de Caster Semenya em 2009 levantou suspeitas


A história do atleta que tomou veneno para ser campeão olímpico. E foi!
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Daniel Brito

Thomas Hicks é o nome do britânico-americano que protagonizou uma das histórias mais inacreditáveis de todos os Jogos Olímpicos da história moderna. E, como estamos em meio a uma grande polêmica envolvendo doping, o capítulo da história dos Jogos dedicado a Hicks tem uma pitada, podemos dizer, quase fatal de drogas para melhorar a performance esportiva.

Seu ouro olímpico veio após consumir duas doses de estricnina, comumente usado como veneno de rato, mas que em algum momento foi usado como estimulante, por atuar no sistema nervoso central.

Fazia calor, estava muito úmido, o percurso contava com oito morros para serem vencidos pelos maratonistas, a largada ocorreu às 15h. Dos 32 competidores, 18 desistiram no meio do caminho. Um deles quase morreu com uma hemorragia no esôfago provocada pela poeira levantada pelos carros que acompanharam os atletas no trajeto até a linha de chegada. A pista era de terra batida. Só havia uma estação para hidratação ao longo dos 42 quilômetros.

O quarto colocado foi um carteiro cubano que simplesmente parou e tirou um rápido cochilo no meio da prova, porque quilômetros antes ele comera algumas maçãs podres que colhera no percurso.

O primeiro a completar a maratona foi o nova-iorquino Fred Lorz, mas não levou o ouro para casa. Descobriu-se, após a chegada de Lorz, que ele pegara uma carona com seu treinador após o 14º quilômetro, sob a alegação de estar exausto, e fizera boa parte da maratona de carro.

Assim, ele foi desqualificado.

Thomas Hicks, por sua vez, cumpriu os últimos metros carregado pelos ombros pelo treinador. Ele fez boa parte da prova caminhando, e sabia que Lorz já havia cruzado a linha de chegada em primeiro lugar. Para não desistir, recebeu duas doses estricnina que somadas, eram inferiores a 1g.

Para que o “doping” descesse melhor goela abaixo, ingeriu a estricnina com clara de ovos crus. Ainda tomou umas doses de brandy (uma forte bebida alcoólica) para recuperar o fôlego. O historiador George R. Matthews garante que uma terceira dose de estricnina, com clara de ovo, brandy ou qualquer outra coisa, ocasionaria a morte de Hicks.

Apesar dos estimulantes, não foi desclassificado, e com a exclusão de Lorz, que tomara uma carona no carro do treinador, Thomas Hicks sagrou-se um inacreditável campeão olímpico com o tempo de 3h28s53 – o pior tempo já registrado em todas as maratonas olímpicas.

Túnel do tempo
Importante lembrar que isso ocorreu na maratona olímpica de Saint Louis, nos Estados Unidos, em 1904. A prova mais surreal da história dos Jogos Olímpicos.

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Hicks, carregado, antes da chegada. E após o ouro olímpico em St. Louis-1904


Brasileiro celebra punição a russos: “Perdi dinheiro por causa de drogados”
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Daniel Brito

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Caio foi bronze no Pan-2015 nos 20kms

Por azar, ou vai ver foi sorte, o marchador brasiliense Caio Bonfim, 24, compete contra a maioria dos atletas russos que foram flagrados em exames antidoping. Foram mais de 25 “drogados”, aspas para Caio, que falharam em testes. E agora a WADA (Agência Mundial Antidoping) declarou guerra aberta contra a Rússia, pedindo a suspensão do país de todas as competições de atletismo.

O azar de Caio é que marchar contra quem usa substâncias proibidas o tirou de pódios importantes. Isso o fez perder a oportunidade de ganhar a bolsa pódio, investimento do governo federal que pode pagar até R$ 15 mil por mês ao atleta, de acordo com o ranking mundial.

Caio foi o quarto colocado no Mundial juvenil de 2010, atrás de dois russos, um deles suspenso por doping. O outro abandonou o esporte. Depois esteve no Mundial da modalidade em 2012 e 2014, além do Mundial de atletismo em Daegu-2011, na Coreia do Sul, em que foi superado por russos, quase todos sancionados anos mais tarde.

“O Mundial de 2011 eu terminei em 21º, mas ganhei três posições depois que acabou, por causa das punições aos russos”, conta Caio. Entre os flagrados, um foi suspenso por dois anos, outro por oito, e o terceiro, Vladimir Kanayakin, banido do esporte, por ser reincidente.

“Não consegui me tornar elegível para receber o bolsa pódio porque em 2014 não obtive o resultado necessário, competindo contra esses russos drogados”, queixa-se o brasiliense. “Então, quer dizer, um atleta olímpico em preparação para os Jogos em casa não pôde contar com investimento federal por conta dos erros e das drogas que os caras tomavam lá na Rússia. É brincadeira?”, conclui Caio.

Suspeitou desde o princípio
Se somarmos os pódios olímpicos da Rússia e da União Soviética na marcha atlética, chegamos à incrível marca de 25 medalhas, oito das quais de ouro. Eles sempre foram o “Dream Team” deste esporte. “A gente já foi muito fã desses russos, porque eles dominam a técnica. A parte psicológica e a dedicação aos treinamentos eram impressionantes”, conta Caio.

De Daegu-2011 para cá, no entanto, a admiração perdeu espaço para a suspeição. Os russos se insurgiram quando a IAAF (sigla em inglês para Federação das Associações Internacionais de Atletismo) determinou que todo competidor que fizesse check in na vila dos atletas teria de se submeter a um exame de sangue, para teste de doping. “Eles adiaram a entrada na vila, só chegaram lá 24 horas antes do início da competição, que é um procedimento fora de todos os padrões”, relembra o brasileiro.

Em Moscou-2013, em casa, os marchadores locais eram minoria, as investigações corriam em segredo para a comunidade internacional, mas já devassavam os atletas russos. “Nós, atletas, suspeitávamos que alguma coisa estava acontecendo, mas eu particularmente nunca soube de nada, claro. E quando você está ali na competição, não dá mais para pensar nisso, é só concentração na prova mesmo. Mas hoje já vejo as coisas fazerem sentido”, diz Caio.

Sorte ou azar
Caio é especialista na prova dos 20km, e conversou com este blogueiro após o treino da tarde quente e seca de segunda-feira, em Sobradinho, Distrito Federal. Acompanhou pela internet o noticiário sobre a possível suspensão da Rússia de todas as competições de atletismo. Inclusive do Rio-2016. E comemorou.

“Tem gente que fica triste que isso esteja acontecendo na marcha atlética, mas eu acho é bom, porque limpa o esporte”, opinou.

E é aí que mora a sorte de Caio Bonfim por viver este momento do atletismo mundial. Sem os russos, suas perspectivas são maiores ainda. Ele foi sexto colocado no Mundial de Pequim, em agosto, e só não foi o melhor brasileiro na competição porque Fabiana Murer pegou a prata no salto com vara. Faturou o bronze no Pan de Toronto-2015, uma das poucas medalhas da seleção nacional da modalidade no Canadá. Nos prognósticos do COB (Comitê Olímpico Brasileiro), ele é um dos quatro desportistas do país com chance de ir ao pódio no atletismo no Rio-2016. Sem os russos, as chances aumentam.

“Desde a saída dos russos, houve uma diversificada nos países vencedores das principais competições. No Mundial de Pequim foi um espanhol, por exemplo. Melhor para quem compete de forma honesta, como eu, e tantos outros”, comemorou.


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