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COB gastou R$ 21 milhões além do que recebeu da Lei Piva em 2015
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Daniel Brito

O COB (Comitê Olímpico do Brasil) recebeu R$ 244 milhões em 2015 da premiação das loterias federais, por intermédio da Lei Piva. A informação consta no “Demonstrativa de Aplicação dos Recursos” da lei, publicada na página do comitê em maio. Este montante representa 11% além do que a entidade angariou da mesma fonte em 2014.

Trata-se de um recorde de arrecadação, uma vez que o comitê estimou que receberia “apenas” R$ 202 milhões em 2015.
A entidade, no entanto, gastou R$ 244 milhões desta mesma origem, de acordo com o “Demonstrativo”. Ou seja, uma disparidade superior a R$ 21 milhões.

É importante ressaltar que em 2014, embora tenha recebido menos (arrecadou R$ 218 milhões), conseguiu acumular R$ 55 milhões no fundo de reserva.

Muito dessa diferença apontada no “Demonstrativo'' de 2015 se deve ao investimento direto da Lei Piva nas confederações, que saltou de R$ 74 milhões em 2014 para R$ 165 milhões no exercício seguinte. O ano passado foi marcado pela realização dos Jogos Pan-Americanos, em Toronto, no qual o Brasil terminou na terceira colocação pelo critério de total de medalhas (141) e total de ouros (42), atrás dos Estados Unidos e do anfitrião Canadá.

O blog procurou o COB há 10 dias para explicações, mas não obteve respostas para os questionamentos. A entidade alegou que não conseguira atender à demanda porque a equipe já está toda voltada para a operação nos Jogos Olímpicos do Rio-2016.

Manutenção da entidade x investimento nas confederações

Um item que registrou aumento substancial de investimento com recursos da Lei Piva foi a “manutenção da entidade”. Para se ter ideia, o COB aplicou nele próprio quase o mesmo montante que distribuiu às 29 confederações durante o ano de 2014. O item “manutenção da entidade” cresceu 26% de 2013 para o ano seguinte. E de 2014 para o exercício subsequente outros 15%. Alcançou a marca de R$ 71.5 milhões em 2015. As 29 confederações receberam, em 2014, R$ 74 milhões, contra R$ 61 milhões aplicados em “manutenção” do COB no período.

Desde 2001, 2% do prêmio das loterias federais é destinado ao Comitê Olímpico (1,7%) e  Comitê Paraolímpico Brasileiro (0,3%). A partir deste ano, os paraolímpicos passaram a receber 1%, enquanto o COB manteve seu percentual.


Palco da estreia da seleção na Rio-16 abandona energia solar, sem dinheiro
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Daniel Brito

BRASILIA, BRAZIL - JUNE 15:  General View of fans in the stands enjoying the match action during the FIFA Confederations Cup Brazil 2013 Group A match between Brazil and Japan at National Stadium on June 15, 2013 in Brasilia, Brazil.  (Photo by Robert Cianflone/Getty Images)

Sol de Brasília deveria ser a fonte de energia do Estádio Nacional na Rio-16 (Robert Cianflone/Getty)

Não saiu do papel o projeto de alimentar o Estádio Nacional Mané Garrincha, em Brasília, com energia solar. Duas empresas do GDF (Governo do Distrito Federal) rescindiram, de forma amigável, o contrato para obra, estimada em R$ 12,2 milhões e com previsão de ficar pronta para os Jogos Olímpicos do Rio-2016.

O motivo: falta de dinheiro.

O Nacional foi contemplado com 10 partidas de futebol nos Jogos do Rio-2016 em um período de oito dias, de 4 a 12 de agosto. Os holofotes que vão por luz na seleção brasileira masculina a partir das 16h do dia 4, ante a África do Sul, na estreia do time de Rogério Micale na Olimpíada, serão alimentados por redes de alta tensão vindas das usinas hidroelétricas de Corumbá III e Corumbá IV, em Goiás.

Não era essa a promessa feita no início de 2014. O compromiso oficializado à época era que 75% da cobertura do Nacional pudessem ser utilizados para abrigar os painéis de captação de energia solar fabricados com silício cristalino. Seria ali a Usina Fotovoltáica (USF), nome técnico para produção desta matriz energética. De acordo com a CEB (Companhia Energética de Brasília) atenderia uma demanda da Fifa que gostaria de fazer uma “Copa sustentável”.

Em abril deste ano, contudo,  o DODF (Diário Oficial do Distrito Federal) publicou o balanço da CEB no qual constava a informação da rescisão amigável entre a companhia e a Terracap, agência de desenvolvimento do DF, igualmente uma empresa pública do governo local. A Terracap era a responsável pelo consórcio que tocaria a obra.

“A Terracap solicitou inicialmente a suspensão do convênio e realização de estudos de viabilidade do empreendimento. Depois, a Gerência de Engenharia da Terracap sugeriu a rescisão contratual. Dentre os motivos elencados está a conjuntura econômica/financeira em que a Terracap se encontrava, sem recursos disponíveis, visto que essa despesa não foi contemplada na proposta orçamentária de 2015”, informou a Terracap, por meio da assessoria de imprensa.

A empresa também informou que a obra nem sequer foi iniciada e não há outra alternativa, a não ser continuar alimentando o Estádio Nacional com as linhas de Corumbá III e IV.

E eu com isso?

A arena brasiliense, reerguida ao custo estimado de RF$ 1,9 bilhão, ganhou duas sub-estações de energia cujas redes de alta tensão estão sendo fornecidas pelo SIN-Furnas (Sistema Interligado Nacional) e das usinas de Corumbá III e IV, responsáveis por abastecer todo o DF, que custaram R$ 23 milhões, segundo anunciou o GDF, em 2013. Além dessa, haveria a tal usina fotovoltáica no valor de R$ 12 milhões, que nunca saiu do papel.

A energia solar é limpa e renovável, embora mais cara que a hidroelétrica. Brasília reúne características especiais para aderir a esta matriz energética, uma vez que possui uma estação seca que se estende por quase seis meses no ano em média.

Se a usina fotovoltáica do Nacional tivesse saído do papel, ela substituiria de alguma maneira o consumo da energia da hidroelétrica. As redes de alta tensão de Corumbá poderiam, assim, ter uma destinação muito mais útil para o cotidiano da capital.  Por exemplo, contribuindo para diminuir a incidência de apagões na região central da capital do país, onde estão localizadas diversas autarquias, ministérios, tribunais superiores e sede de bancos públicos.

Além de amenizar a diminuição do nível dos reservatórios no Estado de Goiás, que nesta época do ano começa a preocupar as autoridades, em razão do minguado índice pluviométrico registrado até agora em 2016 na região.

BRASILIA, BRAZIL - JUNE 03: Traffic passes (BOTTOM) as some buses are parked (MIDDLE) in front of the 72,000-seat Mane Garrincha Stadium, which is now used primarily as a municipal bus parking lot, on June 3, 2015 in Brasilia, Brazil. Brazil constructed a number of expensive stadiums for the 2014 FIFA World Cup which now sit mostly empty in part because there is no popular local team to draw attendance. (Photo by Mario Tama/Getty Images)

Sol por seis meses: DF reúne características para projeto de energia solar (Mario Tama/Getty)


Casal que detonou esquema russo de doping depende de ‘vaquinha’ para viver
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Daniel Brito

AMSTERDAM, NETHERLANDS - JULY 06:  Yuliya Stepanova of Russia looks on during her 800m heat on day one of The 23rd European Athletics Championships  at Olympic Stadium on July 6, 2016 in Amsterdam, Netherlands.  (Photo by Dean Mouhtaropoulos/Getty Images)

Yulia Stepanova esperava ter autorização para disputar a Rio-2016 (Dean Mouhtaropoulos/Getty)

Uma campanha internacional de crowdfunding (financiamento coletivo) para Yulia e Vitaly  Stepanov já arrecadou aproximadamente R$ 80 mil em cinco dias. Eles formam o casal que detonou todo o esquema de fraude de doping bancado e ocultado pelo governo russo. O episódio veio à tona após denúncia feita a emissora de TV da Alemanha chamada ARD, em 2014.

Desde então, os Stepanovs vivem com medo. Temem ser vítimas de queima de arquivo. Perambularam às escondidas por Alemanha, Suíça e hoje estão em algum lugar dos Estados Unidos. Na semana passada, os dois concederam entrevista à Comissão de Ética do COI (Comitê Olímpico Internacional) sobre o caso. Reforçaram as denúncias que tornaram públicas à TV alemã há dois anos.

Esperava-se que o COI fosse banir todos os atletas russos dos Jogos Olímpicos do Rio-2016. Havia, inclusive, a expectativa de que o COI fosse dar a vaga olímpica a Stepanova na prova dos 800m do atletismo, na qual é especialista. Seria um prêmio pela delação bombástica e que muda a história do combate ao doping no esporte..

O COI, contudo, nem baniu a Rússia e nem muito menos autorizou Stepanova a disputar a Rio-16. O que foi encarado como um sinal de desencorajamento a futuras delações de atletas, treinadores ou agentes do controle de doping..

Vitaly, por exemplo, era funcionário da Rusada, a agência russa de combate ao doping. Participou do esquema por um determinado período. Até que ele e Yulia decidiram gravar conversas com atletas e treinadores em que confirmavam todo o esquema profissional de doping.

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Yulia, o filho Robert, de 2 anos, e Vitaly: vida nos EUA (Reprodução/Facebook)

Agora, obviamente, está sem o emprego, e desde 2013, o casal tem a companhia do pequeno Robert, filho de Vitaly e Yulia. Mas a família foi abandonada pelos amigos russos, os parentes dos Stepanovs evitam contato. Eles são tidos como traidores da pátria.

A política de investimento em esporte na Rússia passa diretamente pelo Kremlin. Basta dizer que Vitaly Mutko, ministro do Esporte, é suspeito de estar diretamente envolvido no caso de ocultação e financiamento de doping. É uma figura tão controversa que também está no epicentro do escândalo de corrupção da Fifa para eleição da sede do Mundial-18.

Durante os Jogos Olímpicos de inverno, na ensolarada Sochi, há dois anos, a Rússia bateu recorde de medalhas, fazendo uso desse esquema de doping, segundo investigações da Wada (Agência Mundial Antidoping). e a popularidade de Vladimir Putin, presidente do país, bateu na casa dos 80% – muito desse percentual se deve, é verdade, à investida da Rússia na guerra contra a Ucrânia, para tomar a região da Criméia.

Como a Rússia ainda carrega aquela herança soviética de que é possível mostrar toda a força e poderio da nação por intermédio da performance esportiva, o casal Stepanov caiu em desgraça popular no Cáucaso.

Agora, eles buscam sobreviver nos Estados Unidos e o crowdfunding, apoiado por membros da comissão de atletas da Wada, tem o intuito de arrecadar cerca de R$ 265 mil para o casal. Em cinco dias, um quarto deste valor já foi angariado.
Os interessados em contribuir podem fazê-lo neste link.

AMSTERDAM, NETHERLANDS - JULY 06:  Yuliya Stepanova of Russia walk off the track after competing in the Women's 800m during Day One of The European Athletics Championships at Olympic Stadium on July 6, 2016 in Amsterdam, Netherlands. (Photo by Ian MacNicol/Getty Images)

Stepanova disputou o Europeu, em junho, mas lesionada, ficou em último (Ian MacNicol/Getty)


Rio-16 tenta o que DF não conseguiu: salvar o gramado do Mané Garrincha
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Daniel Brito

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Imagem reproduzida da TV do gramado do Estádio Nacional, no início desta semana

O Comitê Organizador Rio-2016 tem 25 dias para salvar o gramado do Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha. Desde 11 de julho a arena está entregue à organização dos Jogos, que montou força-tarefa dedicada ao campo de jogo. No próximo dia 4, às 16h, a seleção masculina estreia contra África do Sul, no Distrito Federal.

O gramado é um ponto de preocupação no gigante de 72 mil lugares erguido para receber o Mundial da Fifa, dois anos atrás. No último dia 10, o Flamengo enfrentou o Atlético-MG com o campo em condição lastimável. A grama estava queimada, dava até a impressão de que um trator havia arado o terreno minutos antes de a bola rolar. Havia areia em todo o campo, a pequena área estava remendada com placas de grama. Os jogadores reclamaram das condições publicamente.

De acordo com a Comitê Rio-2016, nada disso será visto quando começarem os Jogos. “Uma equipe de especialistas trabalha na recuperação e preparação do gramado. Com a interrupção do uso do estádio e o trabalho intensivo dos agrônomos, o campo estará em melhores condições para receber as dez partidas programadas para Brasília”, informou o Rio-16, por meio de sua assessoria.

Serão vetados treinamentos no Nacional. Nem sequer o tradicional reconhecimento de gramado, no dia que antecede à partida, será permitidos, apenas um passeio, sem chuteira, só de tênis, pelo campo.

Problema crônico

Brasília foi contemplada com 10 partidas de futebol nos Jogos Olímpicos do Rio-2016 em um período de oito dias, de 4 a 12 de agosto. Assim, o Estádio Nacional terá quase 50% a mais de jogos nas Olimpíadas do que no Mundial Fifa-14. A Copa do Mundo levou ao Distrito Federal sete partidas em um período de 24 dias. Após os primeiros 270 minutos de bola rolando (três jogos), contudo, o gramado brasiliense começou a apresentar algumas falhas.

Para a Rio-16, o prazo de 72 horas entre duas partidas, respeitado pela Fifa, só será considerado uma única vez. Até porque os Jogos Olímpicos têm 16 dias de duração, contra 30 da Copa do Mundo. Para aumentar o drama do gramado, haverá rodadas duplas do torneio olímpico nos dias 7, 9 e 10 de agosto.

O gramado é um dos problemas crônicos desta arena, de valor estimado em R$ 1,9 bilhão, de acordo com o Tribunal de Contas do Distrito Federal. O GDF (Governo do Distrito Federal) até agora não se mostrou capaz de deixar o campo de jogo em estado perfeito, ainda que ele seja subutilizado. O mesmo Tribunal de Contas também estimou que houve um superfaturamento de R$ 1 milhão do gramado quando da reconstrução do estádio.


Terminou em pizza! CPI da Máfia do Futebol na Câmara termina sem relatório
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Daniel Brito

A CPI da Máfia do Futebol foi dada por encerrada na Câmara dos Deputados. Sem relatório, sem quebras de sigilos, e, principalmente, na semana em que estava agendado depoimento do ex-presidente da CBF, Ricardo Teixeira.

O ex-presidente da Câmara, Waldir Maranhão (PP-MA) autorizou a prorrogação dos trabalhos há 10 dias. Mas no dia seguinte, revogou a prorrogação e extinguiu a comissão.

“Fiquei indignado com a noticia do encerramento da CPI da Máfia do Futebol, sem mesmo ter sequer um relatório, após um recuo do ex-presidente Waldir Maranhão, que voltou atrás no despacho de prorrogação. Espero que o presidente Rodrigo Maia tenha bom senso e o faça”, disse o deputado federal João Derly (Rede-RS), integrante da comissão e autor do requerimento que instalou a CPI.

O depoimento de Ricardo Teixeira foi marcado para a terça-feira passada, dia 19. Detalhe, a Câmara está em recesso, ou seja, o cartola não deporia na data marcada de qualquer maneira.

Derly recorre, agora, ao recém-eleito presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ) para que autorize a continuidade dos trabalhos da CPI. Existe um evidente esquema mafioso no futebol mundial, os dirigentes da CBF estão envolvidos nisso, já comprovado pela justiça americana, e incrivelmente estes seguem comandando o futebol brasileiro, de forma obscura e coronelista”, afirmou Derly.


Handebol promoverá “trem da alegria” com federações estaduais na Rio-2016
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Daniel Brito

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Manoel Oliveira, presidente da CBHb há 27 anos: “Não será dispendioso'' (divulgação)

A CBHb (Confederação Brasileira de Handebol) fará um “trem da alegria” com os presidentes de federações estaduais com dinheiro público durante os Jogos Olímpicos do Rio-2016.  O presidente da confederação, Manoel Luiz Oliveira, no cargo desde 1989, vai pagar com recursos dos patrocínios as passagens aéreas e os ingressos a todos os 27 presidentes das afiliadas à CBHb. Coincidência ou não, esses são os que têm direito a voto na CBHb.

É uma promessa feita em público e até mesmo registrada em cartório. Consta na ata da assembleia da CBHb de março passado, com todos os cartolas estaduais. Manoel Luiz Oliveira reiterou a promessa na reunião e até informou que só não arcará com a hospedagem do grupo porque ficou muito caro.

“Não vai ser nada dispendioso, porque não vamos pagar  hospedagem, que nesta época vai estar caríssima no Rio.  Serão só os presidentes de confederação, os diretores da CBHb e alguns membros da comissão técnica, que não podem ser inscritos na delegação olímpica”, explicou-me, por telefone, Oliveira.

Ele não revelou o total desembolsado pelo trem da alegria do handebol, mas disse que será pago com recursos dos patrocinadores da CBHb. No ano passado, a confederação faturou cerca de R$ 10 milhões em patrocínios. A entidade sobrevive graças a volumosos aportes finaceiros de estatais, notadamente Correios e Banco do Brasil. No entanto, no exercício de 2015, a CBHb registrou um déficit superior a R$ 2 milhões.

“Muitos dos gestores [presidentes de federações]  vêm de Estados de origem de atletas que estão representando a seleção brasileira nos Jogos Olímpicos do Rio. Nem todos os jogadores são de Rio ou São Paulo. Tem gente de todos os cantos do país, e é importante que essas pessoas [presidentes de federações]  tenham a oportunidade de participar da Olimpíada, porque é um aprendizado. Eles [presidentes de federações]  vão fazer análises e verificação de tendências, inovações no jogo e monitoramento das novas regras do handebol”, justificou-se Manoel Luiz Oliveira.

Os presidentes de federações estaduais se organizaram e alugaram uma casa no Rio para se hospedar. A casa,  no entanto, não acomoda 27 dirigentes por dia, houve até um princípio de desentendimento, porque alguns teriam que ser obrigados a dormir no chão. Assim, nem todos ficarão no Rio durante todo o período dos Jogos Olímpicos, muito embora tenham ingressos garantidos para todas as apresentações das seleções brasileiras masculina e feminina.

Questionado sobre a possibilidade de bancar ex-atletas ou representantes históricos da modalidade no país, Oliveira desculpou-se: “Não vamos poder contemplar os ex-atletas olímpicos do handebol,Adoraria, mas é que não estamos em condições de ter este gasto agora.”


Ela ignorou os horrores da guerra e do preconceito, e nadou em Londres-1948
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Daniel Brito

2016-07-19 23.49.34

Eleonora Schmitt disputou os Jogos-48 com 16 anos (arquivo pessoal)

Eleonora Schmitt, 85, é paulistana, filha de alemães que migraram para o Brasil na década de 1920, e traz na memória histórias duras de se ouvir, mas importantes de serem lembradas e contadas. Como do dia em que tomou um voo na extinta Panair do Brasil com a delegação de atletas do país para disputar os Jogos Olímpicos de Londres-1948.

Ao embarcar, encontrou apenas uma poltrona vaga, ao fundo da aeronave. Era uma fileira de dois lugares. Ao lado, estava um negro esguio e sorridente. Eleonora sentou-se junto a ele, apertou os cintos e ouviu do vizinho de assento:

– Escuta, mocinha, se a cor da minha pele te incomoda, eu não vou ficar magoado se você preferir sentar-se em outra poltrona, fique à vontade.

Eleonora respondeu que não a incomodava, acomodou-se ao lado dele, que apresentou-se:

– Muito prazer, meu nome é Adhemar Ferreira, sou atleta do salto triplo. E você?
– Prazer é meu, sou Eleonora, atleta da natação.

Os dois conversaram do Rio até Londres, em um voo de mais de 12 horas de duração.

Apesar de o episódio ter ocorrido há 68 anos, Eleonora conta com uma riqueza de detalhes como se tivesse vivido a cena na tarde de ontem.

Adhemar ainda não era conhecido, tinha apenas 21 anos, estava indo para sua primeira participação olímpica. Somente em Helsinque-1952 viria a tornar-se campeão olímpico, e repetiria o feito quatro anos mais tarde, em Melbourne-1956.

“Foi uma cena curiosa, porque eu sou de família alemã e naquela época, após a Segunda Guerra, os pessoas viam de cara torta os alemães. Então disse para ele, acanhada, que minha família tinha vindo da Alemanha. Lembro-me que sorriu e respondeu que gostava muito da Alemanha, até cantou uma música em alemão, ele trazia um violão na bagagem. Ele era de uma educação, dono de uma conversa tão gostosa”, conta-me Eleonora, por telefone.

Discriminação contra as mulheres

Aquelas horas na companhia de Adhemar foram importantes para Eleonora. Ela tinha apenas 16 anos, compunha a equipe do revezamento 4x100m livre na natação. Viajara a contragosto do pai, o dentista João Schmitt, que só liberara a filha depois que o também nadador Willy Otto Jordan se responsabilizara em cuidar da jovem atleta na capital inglesa.

Após o desembarque, Adhemar e Eleonora não se viram mais durante aqueles Jogos de Londres-48.

As atletas foram alojadas no distante distrito de Wimbledon, na porção sudoeste de Londres. Os homens foram para outro local. Os treinadores, médicos e até os mantimentos ficaram com a delegação masculina.

As mulheres ficaram sem qualquer assistência, relembra Eleonora. Nem comida havia para as brasileiras. Por sorte, Alice, mãe da atleta, pusera em sua mala oito pacotes de 250g de café. “Quando arrumava a mala, a mãe me dizia: ‘Filha, leve esse café porque a Guerra acabou há pouco tempo, a Europa está em racionamento, você vai precisar’. Eu não queria levar aqueles pacotes, mas acabei pondo na mala. Foi a salvação”.

Eleonora lembra que Londres ainda estava sob escombros. Havia prédios e quarteirões inteiros detonados pelos bombardeios da Segunda Guerra. Não era o momento ideal para se promover uma Olimpíada na Europa.

Para resolver o problema da comida, Eleonora e uma outra atleta, as únicas que falavam inglês, fizeram amizade com as voluntárias que trabalhavam no refeitório da delegação dos Estados Unidos e da Argentina. Combinaram que, ao final da refeição das argentinas e americanas, esperariam na porta dos fundos para que as voluntárias trouxessem os restos de comida para servir às brasileiras.

“Houve muita reclamação das mulheres. Lembro que a Piedade Coutinho falou um monte com os chefes da delegação brasileira, mas não adiantava. Foi difícil, viu?”, rememora a nadadora.

Uma equipe especial

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Da esquerda para direita Piedade, Thalita, Maria Angelica e Eleonora (arquivo pessoal)

Piedade Coutinho foi uma das mais importantes nadadoras do Brasil, dona do recorde sul-americana nos 400m por 56 anos – só batido em 2004, por Joanna Maranhão. Piedade era uma das componentes daquele time do revezamento 4 x 100m em Londres-48, que reuniu características únicas. Além dela e de Eleonora, ainda havia Maria Angélica Leão da Costa, e Talita de Alencar Rodrigues, até hoje a mais jovem atleta olímpica da história do Brasil, que competiu aos 13 anos de idade em 1948.

Essa equipe terminou na sexta colocação no revezamento. Um excelente resultado, levando em consideração que nem local para treinamento elas tiveram acesso desde que chegaram a Londres. Ademais, Eleonora não era nadadora, mas atleta dos saltos ornamentais. Dois meses antes dos Jogos-48, ela treinou natação para entrar no time olímpico e conseguiu a vaga. Era a única representante de São Paulo no revezamento, as outras três competiam por clubes do Rio.

Reencontro e pedido de desculpas

Muitos anos depois de Londres-48, Eleonora voltava para São Paulo após um final de semana na praia e recebia o seguinte recado de sua empregada doméstica, Valdivina:

– Dona Eleonora, um negro imenso de grande veio aqui na porta procurando a senhora. Eu dispensei rapidinho, disse que a senhora não estava. Mas ele deixou o cartão dele, com nome e telefone.

O “negro enorme” era Adhemar, havia ido somente conversar na casa da amiga que conhecera no voo da Panair do Brasil rumo a Londres. À esta altura, Adhemar Ferreira da Silva já era bicampeão olímpico, uma estrela no país, mas ainda sofria com o preconceito – até mesmo de Valdivina, que segundo Eleonora, também era negra.

IMG_20160718_162328Telefonei para ele e pedi desculpas pelo tratamento dado pela Valdivina, ele deu uma risada e disse que não tinha problema”.

Tocha Olímpica

Eleonora será uma das homenageadas neste domingo, 24, em São Paulo, durante passagem da tocha olímpica na cidade.

A história da participação de Eleonora nos Jogos Olímpicos de Londres-48 foi registrada no livro “Atletas Olímpicos Brasileiros'',  publicado em agosto de 2015 pela editora Sesi-SP, de autoria da professora Kátia Rubio, da Escola de Educação Física e Esporte da USP (Universidade de São Paulo), e sua equipe de pesquisadores.

 

 


Presidente da França tem alto grau de risco de atentado na Rio-2016
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Daniel Brito

O presidente francês, François Hollande, recebeu o status de dignatário com alto risco de ser alvo de atentados terroristas quando desembarcar no Rio de Janeiro, em agosto, para participar da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos. A tragédia na cidade francesa de Nice na semana passada aumentou o alerta das autoridades de defesa e segurança do Brasil envolvidas na Rio-2016.

França tem sido o vítima de ações extremistas cujos autores se dizem parte do grupo Estado Islâmico. Há uma semana, um radical brasileiro do grupo teria planejado um atentado contra a delegação olímpica da França durante os Jogos Olímpicos, de acordo com um relatório de oficiais de inteligência do governo francês. As autoridades brasileiras afirmaram jamais terem sido informadas sobre o caso pelos europeus.

A França está em estado de emergência desde novembro, quando houve os ataques na casa de shows Bataclan e em outros dois pontos de Paris, matando mais de 130 pessoas. Desde a tragédia de Nice, a França estuda aumentar os bombardeios às bases do Estado Islâmico no Iraque e na Síria.

Hollande é, por enquanto, o chefe de Estado de maior grau de risco com presença confirmada na Rio-2016. O Brasil trabalha em parceria com serviços de inteligência de outros países, inclusive da França, para detectar possíveis ameaças – até agora, não há sinal de que possa estar na mira dos terroristas durante a Rio-2016. Outros dignatários com alto risco de atentado, como o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, o primeiro-ministro de Israael, Benjamin Netanyahu, e o presidente russo, Vladimir Putin, ainda não notificaram o Brasil de suas vindas – em parte, como estratégia de segurança.

No caso do mandatário russo, sua presença pode ser descartada se seu país for excluído dos Jogos Olímpicos do Rio-2016 por financiar e ocultar casos de doping entre atletas russos nos Jogos Olímpicos de Inverno, em Sochi-2014.

LONDON - JULY 30:  French President Francois Hollande arrives at the 'Club France' on Day 3 of the London 2012 Olympic Games, July 30, 2012 in London, England. (Photo by Gabriel Bouys - IOPP Pool/Getty Images)

François Hollande visitou atletas em Londres-12 e está confirmado na Rio-16 (Gabriel Bouys /Getty)


Governo dá aumento de 150% nas diárias dos militares na Rio-2016
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Edição extra do Diário Oficial da União publicada na tarde desta sexta-feira, 15, concede aumento de até 150% nas diárias pagas aos servidores públicos federais e militares que atuarem diretamente nos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos do Rio de Janeiro. Foram beneficiados  servidores da administração pública federal direta, autárquica e fundacional; militares das Forças Armadas e colaboradores eventuais.

A diária mínima paga pela União é de R$ 224. Assim, os servidores e militares vão receber R$ 560 por dia. Supondo que um funcionário atue desde o dia da abertura dos Jogos Olímpicos, em 5 de agosto, até o encerramento, em 21 do mesmo mês, ele terá recebido neste período R$ 9.520.

“A majoração decorre de uma análise bastante objetiva de oferta e procura. No período olímpico, os gastos no Rio de Janeiro são sensivelmente superiores e o Estado tem que estar do lado dos seus servidores pra que eles tenham a condição de subsistência própria nesse período”, disse o ministro interino da Justiça e Cidadania, José Levi do Amaral, em entrevista coletiva.

Estes 150% de aumento aplica-se aos que vão atuar no Rio de Janeiro, sede dos Jogos, e onde estarão a maior parte do contingente. Os servidores que trabalharem nas cidades que receberão as partidas de futebol (Manaus, Brasília, São Paulo, Salvador e Belo Horizonte), serão contemplados com 50% de aumento de diária.

A portaria publicada no Diário Oficial da União enfatiza que os servidores que tiverem a hospedagem financiada pela administração pública federal, o valor da diária cairá pela metade.


Picciani nomeia aliado de Ricardo Teixeira para secretaria de futebol
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Daniel Brito

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Weber (à esq.) foi chefe da delegação brasileira no Mundial-02 (Juca Varella/Folhapress)

O ministro do Esporte, Leonardo Picciani (PMDB-RJ), nomeou nesta sexta-feira, 15, o ex-vice-presidente da CBF Weber Magalhães como diretor do Departamento de Futebol e Defesa dos Direitos do Torcedor da Secretaria Nacional de Futebol e Defesa dos Direitos do Torcedor. Ele embolsará mensalmente o salário de R$ 11.235,00 do Ministério.

Terá como chefe Gustavo Perrella, filho do senador Zezé Perrella (PDT-MG), secretário Nacional de Futebol e Defesa dos Direitos do Torcedor. Weber era assessor do parlamentar no senado. Ou seja, mudou de cargo, mas continua sob as ordens da família Perrella.

Weber_Magalhaes_AE_Fabio_Motta_292Até abril de 2015, Magalhães ocupava a cadeira de vice-presidente da CBF, quando teve início a gestão Marco Polo Del Nero e foi sacado do cargo. Magalhães ocupou o posto de 2004 a 2015, durante a gestão Ricardo Teixeira e José Maria Marin. Contratos feitos pela confederação neste período estão sob suspeição e em investigação pela Justiça dos Estados Unidos.

Antes de ser vice de Teixeira, fora chefe da delegação brasileira na Copa do Mundo da Coreia do Sul e Japão, em 2002. Usou o “pé quente'' da conquista do pentacampeonato mundial como slogan para tentar uma cadeira na Câmara dos Deputados, mas não obteve êxito.

Gustavo Perrella é o protagonista da nomeação mais controversa da gestão Picciani, iniciada em maio. Em novembro de 2013, uma operação da Polícia Federal apreendeu meia tonelada de cocaína no helicóptero de Gustavo Perrella em uma fazenda no município de Afonso Cláudio, interior do estado do Espírito Santo. Após as investigações, a Justiça entendeu que não havia envolvimento dos Perrella. O helicóptero foi devolvido à família.

Na CPI do Futebol no Senado, Perrella pai vota constantemente em favor dos interesses da CBF, embora o discurso seja de “moralidade no futebol brasileiro”.